Ateliê de cerâmica cria sistema próprio para reter e reaproveitar resíduos de argila e esmalte

Na cerâmica, quase tudo passa pela água. Lavar mãos, ferramentas, pincéis, peças, esmaltes. O que raramente se vê é para onde vai esse resíduo depois que desaparece pelo ralo. No ateliê de cerâmica AlmaMia, essa pergunta não é ignorada.
Toda a operação do ateliê é pensada para que nenhum resíduo de argila ou esmalte chegue diretamente à rede pública. Antes de qualquer descarte, tudo passa por um sistema interno de separação, filtragem e reaproveitamento. A lógica é simples: o que pode ser reutilizado não deve virar impacto ambiental.
Maria Angélica, artista e proprietária do ateliê explica que o processo começa na orientação dos alunos. Materiais com resíduos de argila são lavados em um lavatório específico, equipado com filtros que retêm partículas maiores e um sistema de decantação que separa a água da matéria sólida. “A argila, que normalmente seguiria para o encanamento e se acumulando ao longo do sistema urbano, permanece no ateliê”.
Semanalmente esse material é retirado, a água é esgotada e a argila retorna ao ciclo produtivo. “Ela passa por etapas de decantação, secagem controlada e preparo até se tornar novamente utilizável. É uma argila reciclada de verdade, não simbólica, não pontual, mas incorporada à rotina do ateliê”, explica.
Por ser resultado da mistura de todas as argilas usadas ao longo da semana, sua cor final é imprevisível. Clara, mais terrosa ou mais avermelhada, ela carrega em si um aspecto essencial desse processo: não há desperdício, mas também não há controle absoluto. O reaproveitamento exige flexibilidade e consciência.
O mesmo princípio se aplica aos esmaltes. Resíduos de esmaltação e limpeza de pincéis são coletados, decantados e reaproveitados em um esmalte reciclado, sem definição cromática. “Ele é utilizado em áreas onde a função técnica é mais importante que a cor, como o interior de jarras e vasos, que precisam ser impermeabilizados e vitrificados”. Assim, um material que poderia gerar impacto no tratamento de água volta a cumprir sua função de forma responsável.
No AlmaMia, sustentabilidade não aparece como conceito abstrato. Ela se manifesta no processo, na repetição e na escolha de não transferir para a cidade um problema que pode ser resolvido na origem. É ali, antes do ralo, que o cuidado começa.
Crédito da foto: Mel Maia


