"Produto artesanal não tem desconto": Julia Postigo fala sobre valor e conhecimento técnico na Conferência Brasileira de Confeitaria

Dominar a confeitaria vai muito além de executar receitas. Exige compreender processos, ingredientes, reações químicas e tomar decisões conscientes em cada etapa da produção. Foi a partir desse olhar técnico científico que a confeiteira, professora e consultora Júlia Postigo, à frente do Laboratório de Confeitaria, conduziu sua palestra na Conferência Brasileira de Confeitaria, realizada no último dia 26, ao defender a profissionalização do setor como caminho para negócios mais sustentáveis, éticos e transparentes.
Formada em Química de Alimentos, com mestrado em Ciências e atuação consolidada na confeitaria profissional, Júlia destacou que o conhecimento técnico é o que permite ao confeiteiro dominar receitas, adaptar formulações, substituir ingredientes e atender demandas específicas sem comprometer a qualidade, a segurança ou a identidade do produto.
“A técnica é fundamental, mas dominar a confeitaria envolve entender o cliente, saber precificar, organizar estoque, embalar corretamente, otimizar processos e, principalmente, assumir responsabilidade sobre o que se vende”, afirmou durante a apresentação.
Segundo Júlia, é esse domínio técnico-científico que garante autonomia ao profissional, inclusive para lidar com restrições alimentares e escolhas de insumos de forma responsável. “Saber por que uma receita funciona é o que diferencia quem apenas executa de quem realmente domina a confeitaria”, ressaltou.
A palestra também abriu espaço para uma discussão direta sobre ética e transparência na relação com o consumidor. Júlia chamou atenção para práticas comuns no mercado que fragilizam a confiança do cliente, como comunicar o uso de um ingrediente premium e entregar outro de menor qualidade. “Se você diz que usa Nutella, tem que ser Nutella. Transparência não é um detalhe, é parte do posicionamento e da construção de confiança”, reforçou.
Outro ponto sensível abordado foi o posicionamento profissional diante da precificação e dos pedidos de desconto. Para Júlia, produtos artesanais não devem ser tratados como mercadoria comum. “Produto artesanal não tem desconto. Ele é feito sob medida, com técnica, conhecimento e responsabilidade. Quando o confeiteiro entende o valor do próprio trabalho, o cliente também passa a entender”, concluiu.
Uma história que ecoa no setor
A trajetória da marca foi uma das histórias apresentadas na Conferência Brasileira de Confeitaria, realizada em Curitiba no último dia 26 de janeiro, e idealizada por Alyne Mundt, fundadora da Feito Chocolate. Inspirada no formato TED Talks, a conferência reuniu profissionais do setor para discutir, além das técnicas, temas como gestão, posicionamento de marca, inovação, tecnologia e os desafios reais da confeitaria profissional no Brasil.
Com apoio de fornecedores como Barry Callebaut, IRCA Group, BlueStar e Master Martini, a Conferência Brasileira de Confeitaria se consolida como um espaço de troca qualificada e aprofundada. Com a segunda edição já prevista para 2027, o evento é voltado a negócios que buscam crescimento sustentável, estrutura e visão de longo prazo no setor.


